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Sobre o golpe

Comecei a semana elaborando o artigo de hoje. Iria se chamar “Cunhaquistão” e refletia sobre as arbitrariedades do presidente da Câmara dos Deputados e sua intocabilidade. Mas fui atropelado pelos acontecimentos: Eduardo Cunha foi afastado de seu mandato de deputado federal, e, por extensão, deixou a presidência da Câmara dos Deputados.

Meu artigo caía por terra. O paralelo que eu pretendia fazer rechaçando a visão da imprensa internacional que vê em nossa frágil democracia uma republiqueta das bananas, com o regime de exceção que vivemos (vivíamos?) sob o fundamentalismo de Eduardo Cunha, o que nos transformava no Cunhaquistão, perdeu o sentido de ser escrito. A carroça da História atropelou minhas melhores intenções.

OK! Mesmo assim as boas novas devem ser saudadas: Tchau, querido! Fora Cunha!

Com isso, o estranho caso do processo de impedimento da presidenta Dilma fica a cada dia mais estranho. Vejamos:

1 – O pedido de impedimento da Presidenta não se dá por nenhuma investigação, fato ou evento que a envolva em caso de corrupção;

2 – O processo do impedimento da presidenta Dilma transitou primeiro pela Câmara dos Deputados, e foi presidido pelo agora afastado Eduardo Cunha, que é investigado por corrupção na Operação Lava Jato; por manter contas secretas na Suíça e em outros bancos europeus; por suspeita de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras; por manter uma offshore no caso Panamá Papers, e por manipular a Câmara dos Deputados o seu bel prazer, segundo seus interesses particulares;

3 – O processo de impedimento foi votado em plenária, e transmitido ao vivo, via satélite, como um verdadeiro show de horrores, para o Brasil e para o mundo. O pedido de impeachment foi aceito pela Câmara em nome de Deus, da Família, da calopsita Zeca, e de alguns interesses escusos. Pelo muito do que já foi dito, que se registre apenas o casos emblemáticos da deputada Raquel Muniz (PSD), que teve seu marido preso no dia seguinte a afirmar que o Brasil tinha jeito, e dado o exemplo de seu marido à prefeitura de Montes Claros e Minas Gerais; e o voto de minerva, de número 342, do deputado Bruno Araujo (que consta na planilha de propina da Odebrecht), voto que encaminhou o pedido de impeachment para o Senado. Assim, a presidenta que não é acusada de corrupção recebeu o voto de 38 deputados que querem seu impedimento, sendo que destes 35 são investigados por corrupção;

4 – Reitero: a presidenta não é acusada de corrupção. Seu processo de impeachment se fundamenta em duas acusações. Pedaladas fiscais e utilização de créditos suplementares ao orçamento da União;

5 – O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), relator do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na comissão especial do Senado, apresentou nesta quarta-feira (04/05) parecer favorável à continuidade do procedimento que pode levar a petista a perder o mandato. O curioso é que no período de 2011 a 2014, Anastasia praticou atos idênticos aos que estão na peça acusatória contra Dilma;

6- Além de Anastasia, 16 governadores em exercício praticaram as tais das pedaladas fiscais. Por que só a presidenta Dilma é alvo de impeachment? Se as pedaladas tipificam crime, o que será feito com estes governadores?

7- Além de Anastasia e dos 16 governadores, o vice-presidente Michel Temer também deu suas pedaladas. Quando em exercício da presidência, assinou pelo menos três decretos não numerados de crédito suplementar para diversos órgãos do Poder Executivo, estados e municípios, e liberou, sem o consentimento do Congresso, como exigido por lei, cerca de R$ 8 bilhões. Mas não se sabe por que cargas d’água essa responsabilidade não recairia sobre ele.

Pra quem vestiu a camisa amarela da CBF e foi protestar contra a corrupção, acompanhar o desenvolvimento do processo de impeachment contra a presidenta deve estar sendo no mínimo inquietante.

Afastada, mesmo que temporariamente, a possibilidade de Cunhaquistão se consolidar no Brasil, a imprensa internacional acaba por nos ver como uma República das Bananas e denuncia a dimensão de Golpe à democracia brasileira. Estamos falando de mídia do porte da CNN, Le Monde, El País, NY Times, até mesmo o conservador The Economist.

Não bastasse a imprensa internacional, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980; o brasileiro Maurício Lima, vencedor do Prêmio Pulitzer deste ano, e até mesmo o papa concordam: está em curso um Golpe de Estado em nossa democracia.

 

Paulo Eduardo de Mattos Stipp

 

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-Marli Gonçalves- Não há batatinha amarrada na fronte que resolva. Calmante que acalme. Protetor de …

2 comentários

  1. Se estivéssemos num país serio, apenas o conteúdo das conversas divulgadas pelo Juiz Moro, já seriam suficiente para afastar os atuais governantes do pais, e nem precisa entrar no mérito se esta divulgação foi legal, mas mostra a face e a verdadeira forma de ação diante das mais diversas situações, outra observação, é que este governo já acabou, não da mais, o pior cenário que poderá acontecer, é a permanência do atual governo, isso curto, médio e a longo prazo.

  2. Os créditos suplementares e pedaladas fiscais praticados no governo Dilma foram crimes sim, inclusive condenado no tribunal de contas da união. Esses crimes praticados pelo governo são notórios e suficientes para a sua deposição; só não concorda aquele que não entende do assunto ou não quer quer enxergar a realidade ou ainda aquele que tem algum interesse pessoal com esse governo acima do interesse público. Se outros governos tb praticaram pedaladas, que tb sejam condenados…..

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