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Bem vindo a Matrix

 

Por Paulo Eduardo de Mattos Stipp:-

O radiorrelógio toca e mal tenho forças para desligá-lo. Massa amorfa, derretida, escorro pela cama até o chuveiro. A promessa de ressurreição não se confirmou. Corpo moído pela malhação de Judas. A Semana Santa não se encerrou em júbilo, nem em aleluias, mas sim com a lista do Fachin.

O problema não é a lista em si, pois ela não traz nada de novo. Não há surpresas à direita ou à esquerda. Arriba ou abaixo. Simplesmente não há surpresas. “A imprensa sabia disso tudo e agora fica com essa demagogia”, indignou-se Emílio Odebrecht em depoimento reforçando a tese de que a coisa estava, e sempre esteve, posta. Empreiteiras, políticos nas mais diversas esferas e partidos, a imprensa, todos. Todos sabiam de como a coisa funcionava. Pra sermos sinceros, todos sabíamos – até mesmo nós, pacatos cidadãos, sabíamos e coadunávamos com tudo isso. Assim como sabemos que existe uma “Odebrecht” para cada grande ramo de interesse econômico: agronegócio, indústria farmacêutica, frigoríficos, e por aí vai…

A morte sem ressurreição não está na lista. Nem na falta de surpresa da mega estrutura de corrupção. O gosto metálico de sangue e morte que insiste na boca é por estar despertando de um longo e profundo sono de Morpheus. Temo estar acordando em Matrix. O que me angustia é esse despertar em um universo paralelo em que minha vida já não é real. Pior, nunca existiu. Tal como Neo em Matrix, constato atônito que o real é ilusório. Minha vida transcorria besta entre cachorros e bananeiras de uma tropical vida brasileira. Uma existência leve e banal em uma urdidura distópica.

“As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, “caem as cortinas”, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.” (Wikipédia)

É sério, pare pra pensar. Não fosse o bug no sistema gerado pela justiça suíça, continuaríamos vivendo uma Second Life. Para além da normalidade da vida, éramos governados pelo Big Brother (Grande Irmão) Marcelo Odebrecht e tal como em 1984 ou mesmo em um reality show barato acreditávamos na ópera bufa que se simulava enquanto realidade. Acompanhamos passo a passo a acirrada disputa eleitoral de 2016. As voltas e reviravoltas nos índices das pesquisas eleitorais. Assistíamos aos acalorados debates na televisão. E tudo era irreal. Ilusório. O fantástico show da vida era mero entretenimento. O Grande Irmão manipulava suas marionetes ao bel prazer. O pastor Everaldo ajudando o candidato da virada. Os índices de audiência acompanhando a aflita disputa eleitoral.

Em primeiro de outubro de 2015 o Ministério Público da Suíça abriu uma “ação criminal” contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pela suspeita de lavagem de dinheiro. Eis o bug suíço na sociedade Black Mirror tupiniquim. No dia 26 de outubro, corrompendo o sistema de Matrix, Dilma Rousseff foi reeleita por uma estreita margem de votos.

Nós, meros comedores de feijão, tal como tamagotchis (bichinhos virtuais) que comem, defecam e vivem uma vida virtual, nos polarizamos em embates civis: Sul/Sudeste X Norte/Nordeste, mortadelas X coxinhas, petralhas X tucanos. De milhões de Cunha passamos a saudar o malvado favorito. Combatíamos a corrupção sob a égide e a batuta de um corrupto reconhecido internacionalmente. Veio o impeachment. Ânimos exaltados e nova polarização social. O muro da vergonha construído na Esplanada dos Ministérios. Críamos no pleno exercício da cidadania, pois desconhecíamos que o Big Brother havia “financiado” (eufemismo) 140 deputados para “fazer o Eduardo presidente da Casa” (segundo depoimento de José Yunes).

Democracia e participação social sem poder de decisão. Uma vida artificial. A Operação Lava Jato é a grande responsável por trazer esse Brasil da deep web, das profundezas de Matrix. Tecnologia e informação a serviço do Grande Irmão. O Black Mirror dos trópicos expondo o episódio mais bizarro e nojento do PIG – Partido da Imprensa Golpista. É curioso tentar entender o timing da Lava Jato, pois se ela tinha acesso a todas essas informações (e, provavelmente a muitas outras) qual o critério para torná-las públicas? O que é publicização da justiça e o que é vazamento? Como interpretar os vazamentos seletivos de informação? Seja os grampos à então presidente, seja à transmissão ao vivo para o site Antagonista? Qual a legalidade e a constitucionalidade da condução coercitiva do ex-presidente Lula ou de Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania? Ou, ainda, tentar compreender o alcance ético de um juiz se deixar fotografar com citados e investigados na operação. E, por fim, de que a Lava Jato tem contribuído para o fortalecimento das instituições republicanas e democráticas?

Debate televisivo; eleições democráticas; movimentos sociais e liberdade/manipulação de imprensa; processo de impeachment; o show dos horrores no Congresso Nacional enquanto espetáculo midiático e como corrupção; falência do Poder Legislativo; um Judiciário parcial e renitente; um Executivo golpista, desacreditado, com todos os ex-presidentes vivos citados e investigados; uma mídia manipuladora, e, enfim, a crise da República. Nada é o que parecia ser. Vivemos em uma distopia (um mau lugar, um lugar ruim).

A Páscoa judaica é marcada pelo consumo de ovos imersos em ervas amargas como rito de passagem (páscoa) das agruras da escravidão hebraica à libertação pelo êxodo por Moises. Minha Páscoa tupiniquim foi marcada por um amargo ovo de chocolate suíço – a prisão de Eduardo Cunha – que “bugou” o sistema e me despertou para o deserto do real.

Bem vindo a Matrix!

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