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O RELÓGIO DE OURO

Crônica:-

Marquinhos Dóres                                            m-dores@uol.com.br

 

Sessenta anos de idade. Sessenta primaveras. A família toda estava em festa. Os filhos formados e encaminhados na vida resolveram fazer uma surpresa ao pai. Não poderia haver presente mais emblemático do que um relógio de ouro. O pai sempre foi um trabalhador exemplar, correto em suas ações e principalmente pontual em todos os seus compromissos. Era do tempo que um fio de bigode valia mais que mil assinaturas. Sem dúvida ele merecia o melhor. Era uma pessoa de hábitos simples, sem qualquer vaidade e que sempre lutou com muita dificuldade para dar estudo ao casal de filhos. Quando abriu a caixa de presente, ficou paralisado diante da peça reluzente que viu. Logo ele, que nunca teve nada de ouro, nem mesmo a aliança de casamento, ganhando uma preciosidade daquelas. Fez menção de recusar o presente, mas desistiu da idéia com receio de magoar e acabar com a empolgação dos filhos. Eles que estavam tão felizes em poder finalmente reconhecer e premiar com algo valioso, anos e anos de luta e muitas privações. Berenice, que era a mais festeira, tomou a frente e cuidou logo de colocar no pulso do pai aquela peça de grife, que certamente seria notada por todos. “Com o valor de um relógio desses, dá pra comprar dois fuscas iguais ao seu, papai!” O pai ficou ali, meio sem graça, olhando para o relógio dourado, que contrastava com o pele do braço castigada pelo sol. “Não vai dizer naaada, pai!?” O pai não conseguiu dizer nada, apenas deu uma risada amarela e demonstrou gratidão beijando a face dos filhos. “O relógio é pra ser usado… tá ouvindo seo Sampaio, nada de deixar guardado na gaveta, heim!” E a partir daquele dia acabou o sossego do velho Sampaio. Toda vez que ia lavar as mãos, tinha o cuidado de tirar o relógio pra não molhar a peça valiosa. Na padaria do Vicente, onde jogava baralho com os amigos, também tirava o relógio para não riscá-lo na hora de bater na mesa e gritar truco. Ele até adquiriu o hábito de andar com o braço dobrado, como se tivesse apoiado numa tipóia, para não estragar o bendito relógio. Muitas vezes queria deixá-lo em casa, mas acabava desistindo logo que lembrava da recomendação dos filhos: “Nada de deixar o relógio na gaveta, heim pai!”. Todo domingo era sagrado, o velho Sampaio saia da missa e se juntava com os amigos para passarem boa parte do dia no pesque-pague. O sucesso na pescaria era o que menos importava. O gostoso eram as gargalhadas, os casos antigos relembrados e as piadas de sempre que o Mineiro insistia em contar de novo. Estavam todos de cócoras na beira do barranco, ainda moles de tanto rir, quando Sampaio sentiu uma fisgada no seu anzol. Ele ficou de prontidão, no jeito de dar o tranco na vara de pescar. De repente, o peixe mordeu pra valer e puxou com muita força. A vara não era muito grossa e curvou até que a ponta tocasse no espelho d’água. Alguém gritou: “Esse é daqueles bitelo, vai quebrar, vai quebrar…”. Numa reação de puro reflexo, Sampaio pulou na água para não perder o enorme peixe. Esqueceu-se do reluzente relógio e esqueceu também que não sabia nadar. O pobre homem afundava e subia com o braço levantado, como que querendo proteger o relógio de ouro. KÁ ENTRE NÓS… ninguém conseguiu retirar o homem da lagoa profunda e a última coisa que se viu foi o brilho do seu relógio de ouro.

Além disso, verifique

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