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Fabricantes de rótulos

  • Orlando Ribeiro –

Gosto de ler, aliás, sempre gostei. Garoto de infância pobre, meu lugar favorito nas escolas que frequentei em Catanduva, sempre foram as bibliotecas. Recordo-me da coleção encadernada de luxo de “As aventuras de Tim Tim”, das fábulas dos Irmãos Grimm, de grande parte da obra de Monteiro Lobato e seu sítio encantado do pica-pau amarelo e, mais adulto, dos contos de Machado de Assis e dos livros de Fiódor Dostoiévski, Morris West e George Bernard Shaw. Até que, no final do “colegial”, hoje Ensino Médio, na biblioteca do Colégio Territorial “Carmela Dutra”, em Porto Velho, fui “apresentado” ao Pe. Anthony de Mello, um jesuíta e psicoterapeuta que se tornou conhecido por seus escritos sobre espiritualidade em que mesclava a doutrina judaico-cristã ao budismo. Dono de uma leveza sem par, o religioso conseguia retirar dos fatos cotidianos, aparentemente simples, ensinos valiosos. Cito de uma de suas obras, por exemplo, a frase: “E quando pensa em realizar seu sonho?, perguntou o mestre a seu discípulo. “Quando tiver a oportunidade de fazê-lo”, respondeu este. O mestre lhe disse: “A oportunidade nunca chega. A oportunidade já está aqui.”

Pois bem, o religioso também nos brindou com um pequeno texto, em que compara a vida a uma garrafa de vinho generoso. Muitos se comprazem apenas em ler o rótulo, enquanto que outros precisam de provar o conteúdo. Vivemos uma sociedade cheia de rótulos, em que pessoas se digladiam por causa deles. Basta ver o tal de “Facebook”, o maior fabricante de discussões tolas, reclamações improcedentes, calúnias e boatos de todos os tempos. E grande parte dos comentários se assentam em “rótulos”. Há os defensores, os acusadores, os bastiões da dignidade, os caras que tem solução para tudo, os perfeitos, que a tudo rotulam. Para estes, Mello descreveu uma passagem de Buda. Relata o padre que Sidarta Gautama, o Buda, um dia, mostrou aos seus discípulos uma flor e pediu-lhes que dissessem uma coisa qualquer a seu respeito. Os aprendizes se acercaram em silêncio da flor, olharam, tocaram, aspiraram seu perfume. Depois de algum tempo, um deles fez sobre a flor uma erudita preleção, exaltando sua forma, sua textura e seu olor. Um outro dedicou-lhes uma poesia, rimando flor com amor; um terceiro compôs uma parábola, em que a heroína flor vencia a erva daninha com seu valor. Todos, cada qual no seu estilo, tentando sobrepujar, em arte, erudição e profundeza, o colega que falara antes. Até que Mahakashyap, um dos mais humildes discípulos de Buda, se adiantou. Porém, apenas olhou a flor, sorriu silencioso… e nada disse. De todos, só Mahakashyap foi capaz de ver a flor! Assim, talvez, sejamos todos nós: Fabricantes de rótulos! Ah, se pudéssemos apenas saborear uma flor, uma árvore, um pássaro, um rosto humano! Infelizmente, porém, não temos tempo! Andamos atarefados demais em ler os rótulos e em produzir alguns para nossa própria vida. E assim, nunca nos deixaremos inebriar com a vida, este saboroso vinho!

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