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Mo(b)ral da história

Paulo Eduardo de Matos Stipp

“A placa de censura no meu rosto diz:/ Não recomendado à sociedade/ A tarja de conforto no meu corpo diz:/ Não recomendado à sociedade” (Caio Prado – Não Recomendado)

Com o passar do tempo vai ficando cada vez mais cristalina a extensão golpista do (des)governo Temer. Se de início nos perdíamos em discussões se foi impeachment ou golpe, a aparente legalidade do golpe conduzido pelo Congresso Nacional, a insatisfação popular que não suportava mais a corrupção, tudo nos levava a crer no inusitado da política nacional. Parecia que o cotidiano ia tecendo os rumos da política sem uma prévia orquestração. “Na época do impeachment de Dilma Rousseff, eles confabulavam diariamente, tramando a aprovação do impeachment e, consequentemente, a assunção de Temer como presidente”; pontuou o corretor Lúcio Funaro em sua delação premiada.

Fato é que com o passar dos dias o golpe vai revelando um esquema mais elaborado, mais estruturado do que o sabor dos ventos. Trata-se de reconhecermos o golpe enquanto projeto.

O golpe que implantou a Ditadura Civil-Militar de 1964 pode nos servir de régua e parâmetro. É curioso como os golpes necessitaram e necessitam desmontar o setor pensante da sociedade. São sintomáticas as reformas educacionais, as reformas e supressões das disciplinas das humanidades na educação básica. Quanto ao ensino superior, a Reforma de 1968 teve dois princípios norteadores: o controle político das universidades públicas brasileiras e a formação de mão-de-obra para a economia; além, é claro, de abrir o ensino superior para as instituições privadas. O mesmo se observa atualmente. Os projetos são votados, aprovados e postos em prática, sem que se escutem os maiores interessados: estudantes, professores, pedagogos e especialistas da educação (a única exceção digna de nota, aos palpites do ator pornô Alexandre Frota).

O que a toque de caixa está sendo (des)feito na Educação, na Cultura assume a dimensão tragicômica de uma comédia de erros. Extinta em um primeiro momento, a Cultura virou tábua de salvação para o golperno machista de Temer. Após sucessivas negativas de mulheres sondadas para a pasta, Temer nomeou nova cueca para o Ministério: Marcelo Calero. Este, por sua vez, foi “cabra macho” ao contrariar o todo poderoso (e até então, acima de qualquer suspeita) Geddel, em seu capricho de ter seu apartamento no La Vue, uma vista privilegiada construída em área tombada pelo Patrimônio Histórico em Salvador. Em rota de colisão com o golperno Temer, sai Marcelo e entra o socialite-socialista Roberto Freire, um carreirista dissonante com a classe artística que de concreto só acolheu as vaias no Prêmio Camões de Literatura a Raduan Nassar. O coronel Freire ao menos teve a decência de renunciar após a primeira denúncia contra Temer por corrupção, obstrução à Justiça e organização criminosa. Ato contínuo, o ministro interino João Batista de Andrade também renuncia. Nova nomeação, por fim o ministro Sérgio Sá Leitão assume a pasta da Cultura e é chamado de “secretário” pelo presidente. Há de se acrescentar a esta novela o corte de 43% do orçamento fruto do teto dos gastos.

Descaso, incompetência e escândalos já se constituíram marca registrada do golperno Temer, parece que ninguém mais liga – areadas as panelas, ninguém mais se habilita a cozinhar a indignação anti-corrupção (curioso). A moda agora é a nova onda moralista.

Retaliação à exposição “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira”; a arbitrária resolução na justiça autorizando as terapias de reversão sexual, contrariando os países mais desenvolvidos do mundo e a determinação da Organização Mundial de Saúde; até mesmo a tentativa de censura a uma palestra do Dr. Dráuzio Varela em um tradicional colégio de São Paulo.

Mais do que político, o golpe é moralista. Já foi assim em 1964. Muita atenção se dá às brilhantes metáforas de Chico Buarque de Holanda que driblavam os obtusos censores; porém, um dos artistas mais censurados durante a Ditadura Civil-Militar foi o brega-romântico Odair José. Músicas como “Eu vou tirar você desse lugar”, “Uma vida só” (conhecida como: Pare de Tomar a Pílula), e “Amantes” causavam escândalo frente ao moralismo da época.

Agora, a direita raivosa do “Escola Sem Partido” faz campanha para retirar de Paulo Freire o título de Patrono da Educação Brasileira que lhe foi outorgado pela Lei 12.612, de 13 de abril de 2.012. Mais do que um conflito político, o golpe se espraia em um moralismo medieval e na bizarra tentativa de apagar a contribuição de um dos maiores pensadores da história nacional. Não bastava o exílio no primeiro golpe, agora a era Temer procura banir novamente o grande mestre.

Na década de 1960, Paulo Freire propunha um método de alfabetização de adultos em curto espaço de tempo (a experiência de Angicos alfabetizou 300 trabalhadores em 45 dias). Preso e exilado, a República Militar instituiu o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), uma adaptação mal feita do método Paulo Freire que não conseguiu alcançar grandes sucessos.

O fracasso da educação de adultos do regime militar ficou consagrado nos apelidos politicamente pouco corretos daquela época. Em quase toda turma de jovens e adolescentes tinha um sujeito, sugestivamente apelidado de “MOBRAL”, o “pato” da turma.

Moral da história: ondas conservadoras e reacionárias inundam a civilização humana de quando em quando. Inquisição. Censura. Perseguições. Tortura. Desaparecimentos forçados e mortes.

Passadas as trevas, novas luzes clarearão os patos de borracha: a irracionalidade a serviço do novo MOBRAL.

 

 

 

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