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O que reflete o espelho?

Paulo Eduardo de Mattos Stipp-

Imagens têm sido meios de expressão da cultura humana desde as pinturas pré-históricas nas cavernas. Essas imagens foram se desenvolvendo em linguagens cada vez mais abstratas e complexas. O desenho passou a representar uma ideia nos ideogramas egípcios; a escrita cuneiforme dos mesopotâmicos se transformou em uma abstração dos sons e de fonemas, com os fenícios, e culminou na criação do alfabeto grego.

Nasci e cresci sob o signo da galáxia de Gutenberg, onde a imprensa, a palavra escrita, permeava toda informação e formação do pensamento. Hoje, na era do vídeo e da informática, a vida humana volta ser prioritariamente mediada por mensagens visuais. Confesso que a obsolescência de meu celular (primeiro e único, até então) começa a me causar desespero. A eventual possibilidade de adquirir um celular mais “contemporâneo”, digamos assim, me causa paúra.  Sou de uma época em que a aquisição de novas tecnologias vinha acompanhada de um complexo manual de instruções, em que nos debruçávamos por dias, sem entender muito bem. A possibilidade de um novo celular vem junto da triste constatação de ser um analfabeto digital. Minha filha, nativa digital, liga, navega, posta, pesquisa, explora e gera conteúdos escritos ou falados, modifica fotos, e grava vídeos, sem sequer ter visto o tal manual. Seus dedos, quase que por instinto, acionam ícones, percorrem as imagens que lhe amplificam o mundo.

De meu ancestral mais remoto à minha filha neste instante presente, as imagens sempre foram o meio pelo qual a humanidade desvendou, interpretou e se relacionou com o mundo. A cultura visual não só nos distingue dos demais animais, como também é o meio pelo qual nos compreendemos e temos consciência de nossa humanidade.

O mundo das imagens se divide em dois domínios: o das imagens enquanto representação visual (desenhos, pinturas, gravuras, fotografias, imagens cinematográficas, televisivas, holográficas e infográficas). E o do domínio imaterial das imagens de nossa mente (visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos, e toda espécie de representação mental).

Toda essa introdução para reafirmar os riscos que estamos correndo com a crescente censura e criminalização da Arte. Essa nuvem de fumaça moralista mesclada com um fundamentalismo religioso barato tem finalidade política perigosa. O golpe de 2016 não pôde ser violento como o de 1964. Não foi uma tomada de poder, mas um golpe dentro da legalidade constitucional (apesar da não legitimidade); logo, não pôde instaurar a censura. O desdobramento do golpe mostra sua garras agora, travestido de arauto da moral e dos bons costumes.

Deixemos ainda bem claro que pedofilia é crime. É crime em qualquer lugar onde aconteça: em um museu, numa igreja, escola, ou mesmo na rua. A questão que se discute não é essa. Não se pode jogar o bebê junto com a água do banho. Não é porque existem padres e pastores pedófilos que se criminalizam ou censuram as igrejas.

“O corpo nu não é sexo, assim como um piano não é música”, sentenciou, acertadamente, uma postagem do Facebook. O próprio exemplo disso é a imagem de Jesus Cristo crucificado e semidesnudo nas igrejas. Seria uma blasfêmia associá-lo a uma conotação erótica ou mesmo sexual. A própria ideia de ícone já está associada ao sagrado. Não se trata da imagem em si, mas à sua significação. A imagem de Jesus Cristo, popularizada em pinturas, folhinhas e santinhos, em quase nada corresponde ao tipo físico de um judeu da Galileia de sua época. Pele clara, olhos azuis e cabelos sedosos é uma representação ocidentalizada, e não uma realidade.

No terreno da Arte, da literatura, da tradução e mesmo na religião existe uma multiplicidade de sentidos e significados. Por exemplo, Levíticos 26:1 é categórico: “não levantareis imagem nem erguereis colunas ou pedras com imagens gravadas para adorar, pois Eu Sou Yahweh”. Existe uma polissemia nessa sentença.

As representações de deus têm diferentes significados para os católicos, para os evangélicos e para os muçulmanos. Isso talvez ajude a explicar: 1. Que um dos alvos do terrorismo muçulmano se dê contra aqueles que se atrevem a representar a figura de Alá; 2. Ou, o emblemático vídeo do pastor Sérgio Von Helde, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutando e destruindo a imagem de Nossa Senhora Aparecida; 3. Ou ainda, a representação de Cristo completamente nu na Igreja de Santa Maria sopra Minerva, em Roma, esculpido por ninguém menos do que Michelangelo Buonarroti.

Essa polissemia na representação do divino também pode se dar no exercício das Artes. Seria uma profanação pensar um Cristo negro, como fez o filme “O Auto da Compadecida”? Sim? Não? Seria sacrílego pensar um deus como mulher? Sim? Não? Cristo poderia ter sido um indígena asteca, como prega o segundo livro dos mórmons? Essa representações são heréticas?

A Arte não responde a essa multiplicidade de questões. Pelo contrário, as amplia. O papel da Arte não é ser dogmática, unívoca; mas dissonante, provocativa e plural. Como dissemos no início, a Arte, as imagens têm sido meios de expressão da cultura humana desde as pinturas pré-históricas nas cavernas, e toda essa discussão frente a liberdade artística, em suma, expressa o modo como o Brasil quer se ver.

Vale a pena lembrar Narciso, que na arrogância orgulhosa de sua beleza ficou petrificado às margens da lagoa de Eco. A Arte e os Museus não são espelhos que refletem nosso próprio umbigo. A Arte e os Museus são janelas que ampliam nossos horizontes e reflexões.

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