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Meninas não entram

Paulo Eduardo de Mattos Stipp –

Confesso que não sou afeito a filmes de terror, muito menos de ficção científica, mas a série Stranger Things (Netflix) conseguiu me pegar de jeito.

O resgate cultural da década de 1980 nos inunda de maneira envolvente e profunda. Com uma trilha sonora de primeira, os bits eletrônicos regados a muito sintetizador vão nos envolvendo deixando a trama ainda mais eletrizante. Should I Stay or Should I Go, do The Clash se imortaliza em hino. O seriado rende homenagem ainda aos filmes da época, como Jornadas nas Estrelas (Star Wars), Halloween, e até mesmo Caça-Fantasmas (Ghostbusters), e a citações diretas como ET: o extraterrestre e Conta Comigo (Stand by me). Sim, uma turma de garotos em suas bicicletas em busca de aventura. Eis um bom pretexto para podermos voltar a falar de gênero.

Enquanto as meninas brincam de bonecas no interior da casa toda, os meninos se concentram apenas na garagem. A garagem abriga uma infinidade de ferramentas, e, com elas, o domínio do mundo, a transformação da natureza. Mais que isso, a garagem é o portal para outra dimensão. É da garagem que se abrem as possibilidades para o quintal, para o jardim, para a rua, bairro, para o mundo. As meninas restritas ao mundo privado; “belas, recatadas e do lar”; aos meninos a vida pública: as aventuras e o político.

A ideia da aventura como exclusividade dos meninos em suas fantásticas bicicletas nos remete ao consagrado “Clube do Bolinha” dos Gibis da Luluzinha, a protagonista que era impedida de frequentar o universo masculino. Em Stranger Things são as meninas que acabam impondo um protagonismo ao restrito, seleto e fechado grupo dos meninos. Eleven, a garota superpoderosa, não se impõe por seus superpoderes, mas pela sua amizade (“amigos nunca mentem”), compromissos (“promessas”) e meiguice. Já na segunda temporada surge a intrépida Max, mais do que isso, a MAD MAX, como aparece grafado no topo dos recordes da máquina de fliperama Dig Dug. Uma garota que joga “fliper” como ninguém, e é skatista. Ué? Mas skate não é coisa de menino, dirão os mais desavisados. Por mais que os rapazes se fechem em copas, a turma não seria turma sem as garotas, que em nada se adéquam aos estereótipos das passiveis e princepescas menininhas.

A teledramaturgia anda repleta de personagens femininos que fogem do enquadramento papai/mamãe dos arautos da ideologia de gênero. A maturidade de Eleven no seriado veio acompanhada de uma roupagem punk, o que me remeteu de imediato à personagem de Lisbeth Salander, da Trilogia Millennium, do escritor sueco Stieg Larsson, uma ciberpunk que hackeava computadores e driblava a intelligentsia em perseguições extraordinárias.

Mulheres de personalidades fortes que não esperam as coisas acontecerem, não esperam o príncipe encantado, mas assumem as rédeas de seus destinos e saem à luta. No meio desse percurso, não podia faltar Hermione Granger, uma garota racional, decidida e objetiva. O cérebro que faltava ao impulsivo Harry Potter.

Aos que propõem o boicote aos produtos da Avon, uma triste notícia: suas filhas, decididamente não serão mais as princesinhas do papai (e isso não depende da marca do cosmético). Pocahontas, Elsa, Mulan (onde a questão de gênero é vista como uma construção social) e Moana são exemplos das novas princesas que não dependem de um par perfeito para serem. Não dependem de um beijo que as despertem. Elas simplesmente são, e acontencem, e protagonizam.

Crepúsculo ou até mesmo Cinquenta Tons de Cinza bem que tentaram condenar as heroínas literárias às torres de castelos de cristais à espera de seus príncipes, mais para sádicos do que encantados. Uma literatura barata que seduz os arautos da Ideologia de Gênero, onde homem é homem, e mulher é mulher, e vampiro é vampiro, e dessa naturalização de forças é próprio da biologia humana que o homem dê umas porradas na mulher amada. E ela até gosta! Só que não!

Esse tipo de romance folhetinesco e barato pode até vender bem e dar boa bilheteria. Bella Swan e do lar e Anastasia de Aço são personagens que não sobreviverão ao tempo. Mulherezinhas frágeis não sobrevivem à voracidade de nosso tempo. Que o diga Katniss Everdeen, uma garota arrimo de família que participa das violentas colheitas de Panem. E mais, decide a violenta partilha de seu coração: entre dois amores, a decisão é dela.

Por mais que queiram naturalizar a fragilidade feminina, por mais que queiram biologizar a delicadeza feminina, por mais que queiram ideologizar as identidades de gênero; as mulheres mesmo sem fantásticas bicicletas, ou clubinhos fechados, arregaçam as mangas, mostram o bíceps e anunciam: We Can Do It! (Nós podemos fazer isso!)

 

“Toda donzela/ Tem um pai que é uma fera/ Mas, mal sabe ele/ Que a fera é ela!/ É ela,sim!” (Toda donzela – Baby do Brasil e Pepeu Gomes)

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