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Lady Ilária

Olga Balbo Ferreira Fontes

É fácil falar às mães de maneira íntima, informal, descontraída, numa linguagem muito mais de afetos do que de sons.

Mas aqui, agora, estou embaraçada, mãe! Que palavras usar para traduzir os gestos e expressões de carinho que eu entendia tão bem, apenas penetrando no seu olhar? Impossível comemorarmos um Dia das Mães sem que a memória dos filhos que não mais as têm vá buscar no baú de lembranças um fato, um costume que se transformou em momento prazeroso e do qual nos recordamos com indizível alegria.

Todos conhecem a minha maneira particular de sentir a ausência dos entes falecidos. Que bom que a saudade existe!

Ela é a presença querida transformada em sentimento que avaramente guardamos dentro do peito.

A morte é desígnio de Deus e como tal temos de entendê-la, recebê-la e aceita-la. Quando morremos, tudo o que resta de nós é o amor que demos aos outros. Tudo o que recordamos de bom de um ente querido são aqueles momentos mágicos que parecem fazer o tempo parar. Pior isso a saudade tem de ser festejada e os acontecimentos agradáveis e inesquecíveis têm de ser recordados.

Eles nos trazem de volta, ternamente por instantes felizes, embora fugazes. A presença daqueles entes, tão significativo para nós.

Ignorar essa verdade é negar a sensibilidade da alma. Por isso vou contar-lhes um conto que minha mãe nos contava quando éramos crianças.

Vocês vão se lembrar dos seus. Ela o fazia em italiano e gesticulando o traduzia, simultaneamente. Ei-lo: A dona de casa vai atrás da porta, encontra uma cabra morta. Com seu couro se veste, com sua carne se alimenta. Com seus chifres faz um par de trombetas. E começa a trombetar. Surge então um homem manco que se põe a dançar. Com um facão ela lhe corta um pedaço da nádega. A nádega sangra. Ela tira o avental para enxugar a ferida. O avental é de estopa. É um bobo quem me escuta!

Em italiano as palavras rimam numa sonoridade cadenciada. O engraçado do fato é que ela contava muitas histórias, passando de uma para a outra e reservava essa para o final, pois invariavelmente a criançada bronqueava quando ela dizia “é um bobo quem me escuta”. E, resmungando, íamos todos dormir.

Não era uma professora, mas como era sabida, heim, mãe! Trabalhadora incansável, veio para o Brasil com os pais e oito irmãos homens, todos moços. Sendo a única filha mulher, aos dezessete anos mamãe lavava à mão as roupas de todos e passava com ferro à brasa todas as roupas dos irmãos, inclusive os ternos.

Gastava vinte quilos de farinha de trigo por semana para fazer o pão de toda a família. E que pão ela fazia! Casou-se e teve sete filhos, numa escadinha de dois em dois anos e fez sempre todo o serviço de casa, além de costurar a roupa de todos e também para fora. Nos revezes financeiros de meu pai, ela foi o caixa-forte.

Apesar de ser uma trabalhadora incansável sua formação religiosa levou-a a realizar uma tarefa delicada onde punha toda a polidez de uma alma burilada. Era quem fazia a decoração da Igreja São José em Meridiano. Sem ter feito nenhum curso, sem copiar de revistas, as flores eram dispostas nos vasos, colocadas sobre toalhas alvíssimas, engomadas por ela em perfeita harmonia de cores e tamanhos que encantavam o mais exigente observador. Aquelas mãos embrutecidas pelo trabalho realizavam o sonho do artista na alma. Tinha a singularidade peculiar para valorizar as pequenas coisas, pois para ela eram grandes.

Além do trabalho, qualquer um que seja ele, toda pessoa necessita de algo mais. Precisa do sonho de alguma coisa que suavize a vida, que transforme o viver e coloque nele uma embalagem brilhante com laços e fitas.

É a teoria adocicando a prática, é uma forma compensadora de dourar o dia-a-dia. É uma fuga do vulgar, é sentir-se envolvida por outro mundo. Sentia-se realizada porque tinha junto à sua realidade outra realidade. Sabia tornar poético, encantado e grande o seu cotidiano de mulher “pé-de-boi’, na pequena vila, onde liderava a ala feminina, por sua atuação, por seu exemplo, por seu carisma, heim, mãe? Por sua alma boníssima, heim, mãe? Era a nossa Lady Ilária.

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