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O Nove de Julho de hoje

 Alencar Burti *

 São Paulo comemora, dia nove de julho, 86 anos do início da Revolução Constitucionalista de 1932, quando o estado se rebelou contra o regime ditatorial do então presidente Getúlio Vargas. Este, afastando-se do compromisso liberal que o conduziu ao poder, passou a impor sua vontade à nação. Não bastasse cercear a liberdade dos cidadãos, impôs a São Paulo um interventor contrário aos desejos e interesses do povo paulista, como forma de mostrar autoridade e humilhar as lideranças do estado.

Nos dias de hoje, para a maioria da população ― especialmente para os mais jovens ―, o Nove de Julho é apenas um feriado. Mas precisamos lembrar que ele simboliza e marca o brutal esforço dos paulistas no Movimento Constitucionalista de 32, em busca de uma nova Constituição para o país e de maior abertura democrática. Temos orgulho de contar que a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) participou diretamente da organização da revolução, pois entre os líderes do movimento estava Carlos de Souza Nazareth. Bacharel em Direito e filho de um comerciante tradicional que participou da fundação da associação, ele era o presidente da ACSP em 1932. Embora bastante jovem, assumiu posição de destaque em defesa da volta à normalidade democrática e se tornou uma das principais lideranças do movimento.

A ACSP mostrou que as associações comerciais não apenas congregam os empresários na defesa de interesses econômicos, mas são entidades profundamente inseridas em suas comunidades e participantes da vida política, econômica e social do estado e do país. Elas lutaram pela redemocratização do Brasil e pela autonomia de São Paulo para gerir seus destinos. Manifesto das entidades paulistas lideradas pela ACSP pediram “a restauração do regime constitucional, mediante a decretação imediata de uma nova lei eleitoral que assegure a moralidade e a verdade do sufrágio e consequente convocação de uma Constituinte em moldes liberais, de acordo com o sentimento público, com as tradições nacionais e com o grau de adiantamento da civilização brasileira”.

Na medida em que malogravam os esforços para um entendimento com o governo federal, as associações entraram decididamente no Movimento Constitucionalista, não apenas na mobilização, mas congregando os empresários, na arrecadação de recursos, no alistamento de voluntários e na organização da logística. A ACSP coordenou ainda a Campanha Ouro para o Bem de São Paulo, que arrecadou fundos para financiar a luta dos paulistas pela Constituição. As associações comerciais paulistas se tornaram postos de alistamentos de voluntários e centro de coleta de donativos, e também colaboraram com a logística do suprimento das tropas.

Embora derrotado no campo de batalha, São Paulo se viu vitorioso com a instalação da Constituinte em 1934; esta, infelizmente, teve curta duração. Carlos de Souza Nazareth, no entanto, por ter assumido a responsabilidade pela participação da classe empresarial no movimento, foi preso, levado ao Rio de Janeiro e deportado junto com outros líderes paulistas.

O Nove de Julho de hoje precisa resgatar o legado cívico daqueles que combateram em 1932, lutando para restabelecer os princípios e valores que levaram o Estado de São Paulo à Revolução.

A grande luta que os paulistas ― e os brasileiros ― irão travar em 2018 não será nos campos de batalha: será no plano eleitoral, apoiando candidatos comprometidos com a democracia, a livre iniciativa, os valores morais, a austeridade fiscal, a redução do tamanho e do intervencionismo estatal e a diminuição das desigualdades. Mas este apoio não pode ser apenas retórico, mas deve implicar em um engajamento efetivo a favor dos que, por sua história e compromisso, possam levar o Brasil ao desenvolvimento econômico e social que almejamos e pelo qual estamos dispostos a lutar.

 

Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)

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