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Pedido de namoro

CRÔNICA – Marquinhos Dóres*

Naquele tempo era costume o pretendente ir à casa da moça para “pedir a mão” dela aos pais. Era um pedido de autorização para namorar oficialmente, com o conhecimento e consentimento da família. No início os casais se conheciam no ginásio, no clube, no cinema, na quermesse ou no footing da praça. Eram os únicos lugares que se havia pra frequentar. As amigas faziam o papel de telefone sem fio, (não existia celular), era a denominação que se dava para aquelas que ficavam levando e trazendo recadinhos para o futuro casal, até que reunissem coragem para conversar pessoalmente. Quando acontecia esses encontros, na maioria das vezes havia sempre uma amiga que ficava de “vela”, ou seja, aquela que tinha a função de permanecer junto do casal, para o caso de aparecer um pai ou um irmão mal humorado. Depois ele pedia a garota em namoro e aí sim, poderia segurar a sua mão e quem sabe arriscar um beijo roubado. Antes disso nada era permitido. Não com “moça de família”! Namoravam um tempo às escondidas dos pais dela, apesar de que o resto da cidade já estava sabendo sobre a existência do casal. Na verdade, Zé Antonio e Marinês se avistaram pela primeira vez na quermesse da Matriz. Houve aquela troca de olhares e depois de muitos “correios elegante” onde anonimamente eles falavam dos seus sentimentos. E também havia na quermesse o serviço de auto falante que tocava e oferecia músicas. O locutor com voz empostada dizia: “O moço de camisa azul oferece esta música para a menina de vestido de bolinhas, como prova de alguma coisa.” Então chegou o dia em que Zé Antonio deveria ir até a casa de Marinês, para fazer o pedido e oficializar o namoro. O rapaz vestiu o seu único terno de tergal, aquele que a pessoa sentava, levantava e não amassava. Penteou os seus cabelos com glostora, perfumou-se com a fragrância de patchouli e se dirigiu à pé rumo à Vila Paes. Teve todo o cuidado de parecer um homem de bem, eis que o seu futuro sogro, homem sério e de poucas palavras, católico praticante, Mariano da Fita Larga, esperava um genro à altura do merecimento da única filha. Um quarteirão antes da casa de Marinês, havia a vendinha do Gripe. Resolveu dar uma parada para tomar uma dose de qualquer coisa que lhe destravasse a língua e aromasse a sua boca. Tomou numa talagada só, uma generosa dose de licor de anis. A única mesa que havia no boteco, já estava ocupada por  Vardemá e Rubão, conhecidos pinguços do pedaço. Os dois ostentavam uma dose de rabo de galo e desafiaram Zé Antonio: Quero ver você virar uma dessa aqui, isso sim que é bebida de macho! O rapaz deu um sorriso, virou-se para o balconista e sem pestanejar aceitou o desafio: Bota uma dose dupla pra mim! E de desafio em desafio, naquela disputa insana entre duas gerações, viraram algumas doses. Em pouco tempo o rapaz já estava sem o paletó, a gravata torta e com o nó afrouxado e a camisa toda respingada de baba e bebida. Os dois bebuns, abraçados a Zé Antonio cantavam quase gritando: Nesta longa estrada da vidaaa, vou correndo não posso paraaar, na esperança de ser campeão, alcançando o primeiro lugaarr… Quando Zé Antonio chegou em frente a casa da sua amada cambaleando, com o paletó amarrado na cintura, começou a chamar aos berros: Ei sogrão… sai aqui fora… vamos lá tomar uma no Gripe?! Quero pedir a pata da sua gatinha em namoro. KA ENTRE NÓS… Zé Antonio e Marinês se casaram e tiveram filhos, mas nesse assunto ninguém se atreve a tocar. Em casa de enforcado não se fala em corda.

 

m-dores@uol.com.br

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