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A voz seria daquela pessoa?

CRÔNICA – Marquinhos Dóres –

Jorge instalou-se confortavelmente num espaçoso apartamento do 8º andar, no prédio que é considerado o mais simpático da cidade. Veio a trabalho por tempo determinado. Vai ficar por aqui uns dois anos, no máximo, supervisionando a montagem de equipamentos de alta tecnologia em duas usinas. Engenheiro altamente capacitado, com cursos de aperfeiçoamento no exterior, é requisitado em várias regiões do país, principalmente onde a cana pode ser vista brotando até nos quintais das casas. A vida itinerante, as constantes mudanças sempre impuseram dificuldades para que Jorge assumisse algum compromisso mais sério. Aos trinta e dois anos não encontra tempo para pensar em casamento, por exemplo. Há dois anos chegou a se envolver com a filha de um abastado usineiro. A união seria perfeita e teria a benção das duas famílias. Mas a dondoca imatura, cheia de mimos e insegura, de apenas dezenove anos, acabou com a paciência do nosso bom rapaz. Assim, ele continua desfrutando a condição de bon vivent, que o sucesso profissional e os polpudos honorários lhe proporciona. Nunca teve horário fixo para trabalhar. Tem que cumprir os cronogramas estabelecidos, portanto, não importa se o faz pela manhã, à tarde ou se vara a madrugada desempenhando suas funções. Particularmente prefere o silencio da noite quando o celular não toca, as pessoas não o interrompe e a sua cabeça raciocina com mais eficiência. Gosta de passar as tardes quentes em seu apartamento, onde em ambiente climatizado assiste a filmes de ficção ou lê bons livros. No segundo dia como morador daquele conhecido edifício, o som de uma linda voz se infiltrou pelas paredes de seu apartamento. Era uma voz suave e cristalina que emitia os acordes de uma canção que embalava e estimulava a sua imaginação. Jorge não conseguiu fazer mais nada. Deixou o livro cair no colo, recostou o corpo confortavelmente nas almofadas, fechou os olhos e ficou em estado de transe curtindo aquele momento tão especial. Durante os dias que se seguiram ele não conseguia evitar. Pontualmente às 4 horas da tarde, a mesma voz de anjo, a mesma melodia, a mesma emoção. De quem seria a voz que levava Jorge a sentir sensações que nunca houvera sentido antes? De quem seria aquela voz que parecia vinda dos céus? Aquilo tudo acabou mexendo com o comportamento do jovem engenheiro que passou a observar atentamente as mulheres que transitavam pelo prédio. Queria descobrir a todo custo, de quem era a voz por quem estava ficando cada vez mais apaixonado. Numa daquelas tardes entrou apressado na garagem do prédio com medo de perder a mais um exibição de luxo, que era proporcionada por aquela doce voz desconhecida. Desceu do carro e correu em direção ao elevador. Quando a porta estava se fechando alguém tocou com o dedo no botão e a porta se abriu novamente. Uma mulher. Ela entrou calmamente segurando uma dezena de sacolas. Jorge ainda não tinha visto aquela figura deslumbrante no prédio. Uma jovem que aparentava ter uns 25 anos, alta, esguia, pele bronzeada e o longo cabelo todo anelado que lhe cobria os ombros desnudados. Jorge todo embaraçado diante daquela beleza diferente ofereceu ajuda e desajeitado derrubou algumas sacolas no chão. Os dois de abaixaram para recolher o que havia caído e o rosto de ambos ficou muito próximos. Entreolharam-se uma eternidade que durou cinco segundos. Olhos nos olhos. Jorge sentiu a fragrância suave que ela usava. O tempo parou para ambos, mas o elevador subiu rápido e estacionou no 8º andar. Jorge abobalhado se despediu com um leve aceno de cabeça. Ia deixando o elevador quando ela sussurrou: “Pode devolver minhas sacolas?” Completamente sem graça o rapaz entregou as sacolas, a porta se fechou e o elevador continuou subindo. Jorge entrou caminhando lentamente no seu apartamento. O pobre coração do rapaz parecia que ia saltar pela boca. Seu pensamento era um só: “Só pode ser ela, só pode ser ela, só pode…” Às 4 horas da tarde, pontualmente, aquela mesma voz novamente ecoou pelo prédio. Numa atitude desesperada Jorge saiu correndo, entrou no elevador e digitou o número do andar logo acima. Quando o elevador parou, ele desceu e no hall ficou ouvindo atentamente com a orelha colada na porta de cada um dos dois apartamentos. Assim ele ia conferindo a cada andar. Quando chegou no décimo terceiro ele não teve mais dúvida: “É aqui!” Com as mãos geladas apertou a campainha. Aquela voz silenciou imediatamente. A porta se abriu. KÁ ENTRE NÓS… Jorge empalideceu, arregalou os olhos, deu um longo suspiro e caiu desmaiado.

 

m-dores@uol.com.br

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