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Dia Internacional da Mulher e o 8m  

 

Angelita Toledo –

 

Existem algumas histórias sobre a gênese do Dia Internacional da Mulher, e a mais conhecida alimenta o imaginário de que a data teria surgido a partir de um incêndio em uma fábrica têxtil nos EUA em 1911, e cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Essas mulheres reivindicavam melhores salários, menos jornadas de trabalho (nessa época chegavam a 17 horas), entre outros direitos trabalhistas.  Com certeza, esse incidente marcou a trajetória das lutas das mulheres, mas existem outras situações que levaram à criação desse dia.

Em 1945 a Organização das Nações Unidas – ONU assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres.  Já Nos anos 1960, o movimento feminista se fortaleceu e em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pela ONU.

No Brasil, a preocupação com as causas e direitos femininos surgiram assim como nos demais países na busca por melhores condições de trabalho, no entanto, a luta das mulheres ganhou força com o movimento das sufragistas, quando elas conquistaram o direito ao voto (e de se elegerem) em 1932, na Constituição promulgada por Getúlio Vargas.

A partir dos anos 1970 emergiram no país movimentos sociais de mulheres e feministas que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade entre os sexos, e a saúde da mulher (direitos sexuais e direitos reprodutivos). Em meados de 1980, o feminismo passou a manter um diálogo importante com o Estado, exigindo políticas públicas voltadas para as mulheres, além disso houve criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo, e em 1985 é criada a primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Nesse sentido, acreditamos que o “8 de março” deve ser visto como uma data importante, um momento de resgaste histórico e de mobilização das mulheres para a conquista de direitos, e ainda deve trazer a tona às desigualdades de gênero (e raça/etnia), às violências e o feminicídio, além de impedir que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países.

Contudo, ao passar dos anos o dia internacional da mulher foi capitalizado pelo comércio e transformado em mais um evento de comemoração mercadológica semelhante ao dia das mães, e os meios de comunicação por sua vez reforçam aquela imagem de feminilidade tradicional com imagens da mulher/mãe, da gestação ou da maternidade, e ainda ressaltam padrões de beleza como a magreza e a branquitude.

Mas, se a cada 10 mulheres, 7 serão agredidas ao longo da vida comemoramos o quê? Segundo o Dossiê da Violência contra à mulher (2015): 05 mulheres são espancadas a cada 2 minutos; 01 estupro acontece a cada 10 minutos; 01 feminicidio a cada 90 minutos e 179 relatos de agressão por dia.

Conforme dados da Secretaria de Assistência Social, divulgados recentemente pelo CRAM – Centro de Referência de atendimento à mulher vítima de violência: em 2018 foram atendidas pela unidade cerca de 882 mulheres vítimas de violência; uma média de 50 boletins de ocorrências foram enviados por mês da DDM – Delegacia da Mulher; em 2019 (apenas 2 meses) já atendeu aproximadamente 300 mulheres.

Neste ano no Brasil (nas primeiras três semanas), já foram registrados 107 casos de feminicídios, estamos em 5º (quinto) lugar no ranking como país que mais mata mulheres no mundo.

Então “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”. Esse é o mote da Greve Internacional de Mulheres – “8M”, puxada por ativistas de mais de 50 países, quem propõem um dia sem mulheres no 8 de março, ou seja, parar por um dia às atividades de cuidados é uma forma de (re)significar o conceito de greve, que ao longo da história esteve vinculado somente ao trabalho produtivo (assalariado). Queremos chamar atenção também para o trabalho reprodutivo e não-remunerado que nós mulheres desempenhamos na maioria das vezes em nossos lares.

A história do nascimento do “8M” ou Greve Internacional das Mulheres possui como cenário a Argentina, pois em outubro de 2016, diante do brutal feminicídio da adolescente Lucía Perez, as mulheres na argentinas resolveram dizer basta e organizaram uma greve de uma hora. O violento assassinato da jovem de 16 anos na cidade de Mar Del Plata revoltou essas mulheres.

Em poucos dias, o grito “Ni Una a Menos” (“Nem Uma a Menos”) ecoou por toda a América Latina, onde o índice de violência de gênero e feminicídio são como uma epidemia, inspirando centenas de milhares a unirem-se em protestos, marchas e paralisações solidárias femininas em todo o continente.

E ultrapassando nosso continente, países da Europa, Ásia, e América Central já aderiram ao movimento, nos Estados Unidos, feministas históricas como Angela Davis e Nancy Fraser assinaram um manifesto convocando para a paralisação. Por lá, a expectativa de interrupção das atividades femininas já levou escolas e universidades a cancelarem suas aulas.

Aqui no Brasil outro chamado nosso é “nenhum direito a menos”, pois diante da atual conjuntura podemos perder alguns direitos, sem falar das falhas no sistema judicial com relação a Lei Maria da Penha e do Feminicido, e do aumento da violência contra as mulheres, principalmente os relacionadas às armas de fogo.

Cada país ou cidade definiu eixos específicos, temas que serão alvo dos protestos, mas o combate à violência de gênero e o posicionamento contrário das mulheres à Reforma da Previdência serão os temas mais presentes nos atos brasileiros.

Por fim, o dia 8 de Março é importante porque a mulher ainda sofre opressões: quando formos realmente (e não só na lei) tratadas como iguais, e pudermos viver uma vida sem violências, poderemos transformá-lo em um dia de comemoração. No entanto, estamos no começo do ano, e podemos pensar nessas questões o ano todo. Adoramos flores e presentes, mas mais que isso, queremos direitos e respeito.

 

  • Angelita Toledo é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher – CMDM e integrante da Rede Panapanã de Mulheres do Noroeste Paulista

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